terça-feira, 1 dezembro , 2020

Facções controlam terras indígenas no Ceará

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© Reuters 14 líderes indígenas integram o programa de proteção a defensores dos direitos humanos ameaçados no entorno da capital cearense

MARACANAÚ, CE (FOLHAPRESS) – Na alça de acesso da rodovia que liga Fortaleza à terra indígena Pitaguary, em Maracanaú, na região metropolitana, uma pichação alerta: aqui quem controla é a facção criminosa cearense GDE (Guardiões do Estado). Na aldeia se misturam a floresta, casas de pau a pique, um açude e mais inscrições do tipo.

Foi lá que a cacique Madalena, 54, foi atingida com um tiro na nuca de uma espingarda calibre 12. Até hoje ela não sabe como chegou consciente no hospital e foi liberada no dia seguinte, com oito pontos e três pedaços de chumbo alojados na cabeça após a retirada da bala.

“Só consegui dizer ‘Jesus de Nazaré, me proteja'”, conta ela, que é professora de ensino infantil e fundamental há 20 anos na escola indígena.

O atentado, no fim de 2018, foi posto em prática por um velho conhecido da cacique, que passara a ocupar as fileiras da facção. “Ajudei a criar, ensinei a ler e escrever”, diz sobre o rapaz, que está foragido. A investigação da polícia aponta que ele recebeu R$ 170 para matar Madalena.

Após o episódio, a cacique deixou sua terra por três meses e passou a viver sob proteção do Estado. “Para mim, foi a maior tortura. Meu trabalho é tudo, eu estava mais doente fora daqui”, conta ela, que voltou para a casa simples na aldeia, mas segue sob esquema de segurança.

São três remédios tarja preta para dormir e manter a depressão controlada. “Somos oprimidos, perseguidos, ameaçados, espancados. Mas eu não caí, estou aqui.”

Com pouco mais de 220 mil habitantes, Maracanaú é a primeiríssima da lista de cidades mais violentas do Brasil.

Em 2017, foram 145,7 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2019, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No país, a taxa média de homicídio é de 28 por 100 mil habitantes.

Além de Maracanaú, onde vivem os pitaguary, a região metropolitana tem outros três municípios com terras indígenas: Caucaia (anacé, tapeba), Pacatuba (pitaguary) e Aquiraz (jenipapo-kanindé).

Esta última foi palco do assassinato do traficante Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e seu parceiro Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro de 2018.

Gegê era apontado como o chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital) fora dos presídios e comandava as principais ações de tráfico de drogas para a Europa.

Sua rotina incluía estadias no Paraguai (grande produtor de maconha), Bolívia (maior produtor de folha de coca, base para a produção de cocaína) e Ceará, uma das rotas de escoamento de drogas para fora do país, onde “planejava ampliar seus negócios ilícitos”, de acordo com o Gaeco (grupo de combate ao crime organizado) cearense.

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