32 mil medidas protetivas, 114 mulheres mortas: a crueldade da violência de gênero

Como parte de operação nacional, corporação cumpre 470 mandados contra acusados de agressões motivadas por gênero em Minas. Mais de 80 suspeitos foram presos, pondo em evidência um crime que levou a 32 mil pedidos de medidas protetivas só em 2019

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Grávida de seis meses do ex-namorado, a estudante de direito Isadora Gonçalves, de 23 anos, voltava de carro com ele de uma loja onde foram comprar roupas para a filha. No trajeto, discutiram. Ela pediu que ele parasse, e, então, desceu. Quando passou em frente ao carro, conta que foi atropelada propositalmente. A estudante é vítima de um tipo de violência que, só neste ano, segundo dados da Polícia Civil, tirou a vida de 114 mulheres, apenas entre janeiro e outubro em Minas Gerais. Nos mesmos 10 meses, nada menos que 32.730 medidas protetivas foram pedidas por vítimas contra agressores em todo o estado. Na tentativa de atacar ocorrências dessa natureza, uma grande operação foi realizada em todo o país. Somente no território mineiro, mais de 80 pessoas foram presas.

Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, no estado, de janeiro a outubro deste ano, foram registradas 121.987 queixas por violência de gênero. O número de casos de violência, embora já assustador, pode ser ainda maior, pois muitas vítimas demoram a procurar ajuda das autoridades. Foi o que aconteceu com Isadora. A estudante relata que as agressões praticadas pelo companheiro eram recorrentes e até mais violentas. Mas ela só procurou ajuda quando ficou grávida.
Como ela, muitas mulheres ainda têm receio de expor as agressões, o que faz com que os crimes acabem sendo subnotificados. Mas a exposição não é o único fator que pesa. No caso da estudante, ela relata que, na primeira vez em que decidiu procurar a polícia após ser agredida, acabou desistindo, por ter sido procurada por familiares do agressor, pedindo que ela reconsiderasse a decisão. “Não prestei queixa porque a mãe dele me mandou mensagem falando que eu ia acabar com a vida dele”, relembra.

“Quanto mais ações positivas a gente faz, quanto mais ações de divulgação, mais os números sobem”

Bianca Prado, titular da Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher de Santa Luzia

Para a titular da Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher de Santa Luzia, delegada Bianca Prado, são ações como a operação da Polícia Civil – batizada como “Marias”, em referência à Lei Maria da Penha — que vêm trazendo resultados positivos no incentivo das denúncias. “Hoje em dia, a gente tem cada vez mais a mulher tomando coragem de procurar os órgãos de segurança e fazer a denúncia. Então, ações como essa, que mostram a presença da polícia e que existe, sim, punição, é que estimulam as vítimas a procurar cada vez mais as delegacias”, explica.

Para operação, que teve início anteontem, foram expedidos 470 mandados de prisão e busca e apreensão. Os alvos eram suspeitos de diferentes crimes, entre eles feminicídio, ameaça, estupro, lesão corporal e descumprimento de medidas protetivas. Ao todo, 83 pessoas foram presas. Diante deste cenário tão alarmante, a delegada Bianca Prado alerta que ainda não é possível apontar uma diminuição significativa nos índices de violência doméstica. “Quanto mais ações positivas a gente faz, quanto mais ações de divulgação, mais os números sobem.”

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