sábado, 31 outubro , 2020

Os segredos de Frei Damião

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Dizia-se que flutuava em vez de andar. Quando o jovem Frei Damião (1898-1997) despontava nos povoados do sertão nordestino entre nos anos 1930 e 1960, a população soltava foguetes e tentava acompanhar o passo veloz do frade, até chegar à igreja para iniciar a missão que durava dias. Trabalhava das 5 da manhã às 23 horas. Confessava os fiéis sem confessionário, dava conselhos às parturientes e amaldiçoava o pecado. “É sempre tempo para salvar almas”, dizia.

Os episódios exemplares das peregrinações do italiano Pio Gianotti ocorreram no meio da turba. Nasceu em Bozzano, Toscana, e foi ordenado “fra” Damiano da Bozzano em Roma. Emigrou para o Brasil em 1931. Aqui, encontrou seu público, mesmo que o “capuchinho gorducho, feio e sem jeito, humilde e calado”, como escreveu em 1953 o biógrafo Luiz Francisco dos Santos, não ostentasse carisma. Iniciava os sermões aos sussurros pouco audíveis, mas proferidos em tom ameaçador: “Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos dos vossos pecados!” Os gritos de espanto e contrição de seu rebanho eram abafados pela chuva, que o seguia aonde fosse. Reza a lenda de que calava até mesmo os sapos. No ápice da glória, mandou o povo evitar os fogos de artifício, pois lhe lembravam as bombas da Primeira Guerra Mundial, na qual lutou como cadete.

 

 

© Divulgação FILME Carlos Eduardo Ferraz encena a ordenação sacerdotal em Roma, em 5/8/1923Aversão à santidade

Apesar de retraído, foi adotado como padrinho pelos seguidores, que insistiam em tocá-lo para obter graças. Como seu antecessor, padre Cícero, atribuem-se a ele milagres. Três relatos milagrosos foram submetidos à Santa Sé no processo de beatificação, coordenado no Brasil por frei Jociel Gomes. Em abril, o Vaticano declarou-o venerável por ter vivido as virtudes cristãs em grau heroico. “Para virar beato, é preciso comprovar pelo menos um milagre; para santificação, dois”, diz Gomes.

“O processo leva meses.”

Por tudo o que fez pelos sertanejos, é cultuado por romeiros que acorrem ao convento de São Félix, em Recife, onde está sepultado. Sempre manifestou aversão a honrarias e ao uso político de sua imagem. “Não sou santo, mas apenas um frade”, dizia. “O povo inventa milagres. É o sentimento religioso popular. O milagre só vem com merecimento e fé.” Aos devotos, porém, sua modéstia parece irrelevante, assim como as ideias conservadoras que preconizou. Além de anticomunista, combateu as inovações. “Minissaia não presta”, bradava baixinho. “Muitos homens já perderam a cabeça por causa desse exagero das mulheres.” Ainda assim, antecipou o contato com os necessitados, defendido hoje pelo papa Francisco. “Frei Damião ensinou que é possível lutar por um ideal, apesar de todos os problemas”, diz frei Jociel

 

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