Por Paulo Borges, G1 Triângulo Mineiro

“Hoje foi um dia muito emocionante. Uma paciente que fez apenas oito sessões e não tinha função nenhuma, conseguiu movimentar o braço dela”. Este é o relato da educadora física Isabela Alves Marques, que está à frente de um tratamento para pessoas com sequelas nos braços após terem sido acometidas por Acidente Vascular Cerebral (AVC).

A emoção de Isabela é compreensível e contagiante. Normalmente, para esse tipo de caso os resultados só começam a aparecer depois de 12 sessões. No entanto, a paciente, uma mulher de 34 anos que sofreu um AVC em maio de 2018, surpreendeu a todos ao registrar esse movimento voluntário.

O tratamento faz parte de uma pesquisa que irá compor a tese da Isabela. Formada em Educação Física, ela está cursando o doutorado e a tarefa tem sido árdua e ao mesmo tempo inspiradora.

O tratamento

A pesquisa desenvolvida pela Isabela Alves Marques e pela equipe de pesquisadores Gabriel Cyrino, Júlia Tannús e Leandro Mattioli, com orientação dos professores Eduardo Lázaro Martins Naves e Edgard Afonso Lamounier Júnior, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Uberlândia (Copel/Feelt/UFU), envolve a utilização de um jogo que foi desenvolvido no Laboratório de Computação Gráfica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Ao todo serão feitas 16 sessões, com duração de 30 a 45 minutos, em que o paciente irá movimentar os braços conforme interage com o jogo.

Para participar é necessário que o paciente tenha espasticidade em algum dos braços – ou seja, uma rigidez que não permite o esticamento total após ter sofrido o AVC. Já pessoas que tenham aplicado botox – tipo de tratamento para espasticidade – ou com problemas de fala ou cognitivos não podem fazer parte do estudo.

“Queremos ver se o jogo influencia no controle motor de uma pessoa que sofreu AVC. O paciente tem uma contração involuntária do braço, acarretando em dor e o inabilita para desenvolver as atividades que fazia costumeiramente. Estamos dando o jogo para que o cérebro reaprenda essa função e pessoa volte a fazer os movimentos. Depois, vamos quantificar isso”, explicou Isabela.

Nas asas de uma harpia o paciente tenta reaprender os movimentos dos braços -F oto Divulgação (UFU)

Um dos pesquisadores do estudo, Gabriel Cyrino, contou um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido.

“Os jogos eram usados para diversão, mas com a mesclagem no âmbito fisioterapêutico conseguimos uma melhoria bastante interessante. Com os movimentos maçantes que o paciente tem que fazer na fisioterapia, ele pode ter um desgaste maior ou desmotivar. Por isso, a gente decidiu desenvolver um jogo para auxiliar na reabilitação de membros superiores em pacientes que sofreram AVC”, explicou.

Porém, é importante lembrar que a equipe não aconselha aos pacientes que já fazem fisioterapia abandonem o tratamento.

“Ainda falamos em uma terapia complementar. Oferecemos a reabilitação com o jogo, mas se a pessoa já faz fisioterapia, não pedimos para interromper. Não podemos dizer para que o paciente pare tudo e teste apenas o nosso tratamento”, acrescentou Isabela.

Retorno e acessibilidadeSobre o futuro do tratamento, Isabela e a equipe esperam que o mesmo ajude muitas pessoas e seja acessível a todos os públicos. Atualmente, o sensor utilizado para se jogar remotamente custa R$ 50. A ideia é que futuramente o jogo seja disponibilizado no site da UFU e a equipe médica acompanhe as ações dos pacientes em tempo real. Uma das alternativas é focar em parcerias.

“Queremos devolver ao público o estudo que eles pagaram para a gente”, disse Isabela, se referindo ao fato de a tese estar sendo desenvolvida em uma universidade pública.

No entanto, alguns passos ainda precisam ser dados antes de se chegar ao objetivo final. “Ainda temos que finalizar o trabalho, ver se realmente funciona e, ainda, se será viável”, pontuou a pesquisadora.

“Por ser da área da saúde, acredito que a pesquisa precisa levar benefícios para o público. Sempre quis fazer algo que pudesse ser palpável e oferecer benefícios. A pesquisa ao lado da população pode trazer sucesso”, afirmou Isabela, que está emocionada com os resultados do trabalho

Comente essa notícia

Utilize o seu facebook, para comentar